O princípio do fim do monopólio da informação

Será possível viver sem informação num mundo como este? A questão justifica-se por, contrariamente ao que se possa dizer, existirem pessoas que em pleno século XXI estão alheias aos factos que ocorrem dentro e fora do seu País por conta da restrição do acesso a este bem precioso.

Para mim, a informação é tão importante que, quando chego a uma Província, preocupo-me imediatamente em sintonizar as emissoras radiofónicas que nela existem com o propósito de manter-me informado sobre o que se passa em Angola e além-fronteiras. Trata-se de um ritual celebrado constantemente nestas circunstâncias e, ao que parece, continuará a fazer parte da minha forma de ser e de estar na vida neste mundo que, diariamente, regista ocorrências noticiadas pela imprensa.

Infelizmente esta necessidade nem sempre é satisfeita quando me encontro fora de Luanda devido a falta de diversidade de informação. Com «excepção» de Benguela, Lubango e Huambo, nas restantes cidades do País apenas existem órgãos de comunicação social públicos, nomeadamente, a TPA, a Rádio Nacional de Angola e o Jornal de Angola.

Durante a minha estadia, em 2017, na cidade do Huambo para onde me desloquei para gozar parte das minhas férias, tive uma sensação indiscritível motivada pela falta de informação diversificada. Nesta cidade, além da Rádio Nacional, da Rádio Ngola Yetu e da Rádio 5, existe apenas uma rádio privada cuja programação não me agrada.

O Jornal de Angola vende as edições dos dias anteriores e sobre a TPA nada há acrescentar por a sua programação ser aquilo que todos conhecemos. Apesar da beleza da cidade, sentia-me limitado por não ter a possibilidade de aceder ao serviço prestado pela LAC, ou pela Rádio MFM, tampouco ainda pela Rádio Eclésia que são por sinal os meus canais de eleição.

Durante as conversas que mantinha com o meu tio, apercebi-me que ele desconhecia a noção de pluralismo de informação. Tanto é assim, que ele desconhecia o DEBATE LIVRE, um dos programas da TV ZIMBO com maior audiência, emitido às terças-feiras, a partir das 21:00.

Informação é poder e exerce-o quem souber utilizá-la no momento certo e da melhor maneira. Privá-la aos cidadãos, ou limitar o seu acesso a estes, é uma das formas de mantê-los no obscurantismo, e, deste modo, dominá-los facilmente. Cheguei a esta conclusão enquanto estive cinco dias no Huambo de onde saí em direcção a Luanda por não mais suportar a falta de informação que muito me atormentava.

O pronunciamento feito pelo Presidente da República sobre inexistência, a seu ver, de motivo algum para que a Rádio Eclésia não emita o seu sinal para fora de Luanda, foi acolhido com satisfação pelos cidadãos que vivem dentro e fora de Luanda.

Ao receber a notícia de que a referida rádio começou a emitir o seu sinal para a Província de Malanje, terra dos meus ancestrais, senti-me alegre por saber que outros cidadãos terão acesso a mais uma fonte de informação.

É desejo de todo o cidadão, ao qual a Constituição confere o direito à informação, que outros canais radiofónicos possam, igualmente, emitir os seus sinais para as outras Províncias. Se assim for, daremos mais um passo rumo a consolidação da nossa democracia e do Estado de Direito.

 

 

Um ilustre desconhecido

A FCS/UAN realizou há alguns anos um colóquio subordinado ao tema “Memória, Identidade, Cidadania e Desenvolvimento” que contou com a participação de, entre outros, do ilustre nacionalista Luís Neto Kiambata que apresentou ao evento uma comunicação.
O evento permitiu que alguns estudantes abordassem o mais velho que é um dos convidados do programa África Magazine emitido aos sábados na RNA.
Apercebendo-me deste facto, não perdi a oportunidade conversar com o (ex-) embaixador sobre os motivos pelos quais o MPLA não reabilita a figura de Viriato da Cruz e outras relacionadas a esta personalidade que, segundo Edmundo Rocha, “iluminou os céus do nacionalismo angolano”.
Durante a conversa fiquei a saber que existe na Província do Kwanza-Sul uma rua a qual foi atribuído o nome Viriato da Cruz como forma de perpetuar a sua memória.
Mas será que atribuição do nome de uma personalidade histórica da dimensão de Viriato de Cruz é suficiente para que se conheça a sua história interligada com a de Angola?
Na semana passada, quando ia para casa, dei boleia a uma jovem que dizia viver numa zona próxima daquela onde vivo. O seu sotaque dava-me a indicação de que teria nascido numa das Províncias. Esta palavra, usada no singular ou no plural, tem o entre nós, luandenses, o significado de “fora de Luanda”.
A minha interlocutora afirmou ser natural do Sumbe, Município/Capital da Província do Kwanza-Sul. Respondendo a questão sobre a existência da Rua Viriato da Cruz na Província do K.Sul, a jovem disse haver, de facto esta Rua.
Depois de me ter confirmado este facto, procurei agir em conformidade com uma das regras que deve ser seguida durante o contacto com uma fonte: nunca dar a entender a fonte que possuis informação/conhecimento sobre o tema em estudo. Por outras palavras, melhor é apresentar-se como se não soubesses nada sobre o assunto sobre o qual se procura alguma informação.
Nesta ordem de ideias, questionei a minha interlocutora o seguinte:
– Quem é este Viriato da Cruz? A resposta não tardou:
– Não conheço.
Para piorar as coisas, salvo opinião melhor fundamentada, os programas de Língua Portuguesa em Angola não incluem o estudo da Literatura Angolana por via da qual a jovem poderia obter algum conhecimento sobre Viriato da Cruz.
Na verdade, a falta de referências históricas afirgura-se como uma das razões da crise de valores que se verifica no seio da juventude angolana.
Pois, falar de personalidades históricas é falar acima de tudo de modelos de conduta.
A minha interlocutora não é única que desconhece a figura de Viriato. Alías. como ela, estarão muitos estudantes, incluindo membros do MPLA que desconhecem o fundador do partido que, ao que parece, nunca realizou uma actividade onde fosse abordada a trajectória deste intelectual e nacionalista.
O que aconteceu durante anos a fio, foi que os jovens afectos a JMPLA promoviam maratonas onde a cerveja era vendida a preço baixssimo, como forma de atrair outros jovens para as suas fileiras, um comportamento que em nada diz se assemelha com aquele que Viriato teve.
É hora de se rever o ensino da História e da Literatura de Angola; por outro lado, se quisermos ter uma juventude educada, deve-se evitar a despartidarização da História de Angola, porque o contrário será promover a exclusão e a manipulação da memória colectiva.

Pessimismo ou realismo?

Apesar da difícil situação financeira que o País vive, tivemos a oportunidade de, durante a campanha eleitoral, realizada em 2017, vibrar com a promessa do combate à impunidade feita pelo candidato do partido maioritário que viria com este a disputa eleitoral.
O entusiamo e a euforia popular mantiveram-se pelo facto de o País ter testemunhado a ascensão de um novo rosto no exercício do poder e pela frequência com que o mesmo falava do combate a impunidade como forma de combater a corrupção.
O momento era realmente tão marcante que poucos terão sido os cidadãos que mantiveram-se duvidosos quanto ao cumprimento da referida promessa, além de outras. Embora eu evite falar de mim, não vejo como não me incluir entre os Tomés que “preferem ver para crer” o cumprimento da promessa feita, até porque (para quem não me conhece aqui vai outro dado pessoal), em função do meu temperamento (sanguíneo? colérico? fleumático? melancólico?), nunca fui dado a euforia e a entusiasmo manifestados por muito boa gente.
Embora, como humano eu possa expressar emoções, tendo sempre a submete-las a razão e, conforme veremos, penso ser esta a melhor atitude que se deve ter, principalmente num país como este que regista momentos de excitação provocada por políticos.
Mantendo o foco no assunto, estamos claramente de acordo de acordo de que os quatro meses de exercício do poder do novo PR são insuficientes para cumprir com a promessa feita durante a sua campanha eleitoral durante a qual conquistou o apoio popular e continua a tê-lo.
Contudo, passada a lua-de-mel, a euforia e o entusiamo popular parecem terminado, estando a agora o povo a questionar-se se realmente o discurso será transformado em acção.
E há motivos para que assim seja, sendo de destacar, entre outros, a acusação de que tanto a anterior administração do Fundo Soberano quanto a da Sonangol terão desviado valores elevados para, presume-se, em benefício pessoal. Na sequência, assistiu-se nas redes a defesa pessoal feita por uma das pessoas acusadas que teria dado a entender que estava em curso uma perseguição contra si…
Sendo o combate a impunidade o discurso que cativou o apoio e a alma do povo que na sua maioria elegeu o «combatente da impunidade», e parecendo haver vontade de combater este mal, espera-se que desta vez sejam apurados os factos e responsabilizados os seus autores (morais e materiais). E que deixemos de assistir a simples acusações e defesas feitas em hasta pública.
Isto porque, o combate a corrupção não se faz com discursos, mas, sim, com investigação/apuramento dos factos, instrução de processos, julgamentos e, por último, condenação ou absolvição.
O receio é que isto não venha a acontecer e que prevaleça a tendência actual que consiste em atacar/acusar e defender-se. A ser assim, o combate à impunidade será mais um momento de euforia, entusiamo, portanto, passageiro, previamente concebido com o propósito de iludir o povo. E o que dirá este? “Que os iguais protegem-se”. Porque, queixar-se ao porco, é o mesmo que queixar-se ao javali (Sabedoria Popular).

 

“Angola Me Diz Ainda” de José Luís Mendonça

Excelentíssima representante da União dos Escritores Angolanos
Ilustres escritoras e escritores
Distintos convidados
Minhas senhoras e meus senhores

 

Permitam-me, antes de tudo, felicitar o escritor José Luís Mendonça pela publicação da sua obra e manifestar a minha profunda gratidão pelo honroso convite que me foi formulado para apresentá-la.

Apesar de ser um leigo em matéria de Literatura, foi-me difícil negar o desafio proposto pelo autor da obra. Portanto, é na qualidade de leitor que me posiciono enquanto apresentador de “Angola Me Diz Ainda”.

Esta obra que, segundo o autor, dá sequência ao livro de Agostinho Neto, “Sagrada Esperança”, é constituída por 54 poemas escritos na década de 80 e de 90 do século XX e nas duas primeiras do século XXI, caracterizadas, respectivamente, pela restrição das liberdades fundamentais e pelo pluralismo de ideias, razão pela qual somente agora ela é publicada.

“Angola Me Diz Ainda”, poema que dá título à obra, é o retrato dos muitos problemas (que vão do político ao social, não deixando de haver os de natureza económica) que afligem uma sociedade onde a corrupção tornou-se o meio de enriquecimento de uma minoria detentora de poder financeiro que se mostra indiferente com o sofrimento da maioria dos cidadãos, que, pouco ou nada tendo, lutam para sobreviver através da venda de sacos de água ou de cerveja, negócios feitos na rua e a porta da casa.

Há neste poema um lamento de quem se sente inconformado com a realidade sociopolítica marcada pela pobreza extrema, a impunidade, a imposição do silêncio e do medo agravada com o desaparecimento trágico de dois cidadãos, Cassule e Kamulingue, que reivindicavam os seus direitos, e de um outro, Cherokee, apreciador da música do rapper MCK.

Final trágico também teve o jornalista Ricardo de Mello, director do Imparcial Fax. A sua morte ocorreu num período (1995) em que a imprensa independente, crítica ao poder político, dava os primeiros passos num País onde a comunicação social foi, durante os primeiros 15 anos de independência, apêndice do partido-Estado.

José Luís Mendonça, que além de poeta é jornalista, presta assim homenagem ao seu antigo colega de profissão num poema que cito de seguida:

Em nome da liberdade

de imprensa te imolaste

ao deus chamado Trilhões.

 

Tombaste na frieza

das escadas que a política constrói

para subir quem manda e descer

quem não tem mais nada a perder

que a própria Vida.

 

Ricardo, a tua morte não calou

a maneira torta do regime, mas

um dia hás de subir com tua voz Imparcial

as escadas da memória onde caíste

segurado pelas bocas

de dizer nosso país.

 

O predomínio do interesse pessoal sobre o interesse colectivo é um dos sintomas de uma sociedade onde a ganância e a apropriação de bens públicos com ou sem a cobertura da lei parece não ter fim.

Não admira então que alguns monumentos tenham sido privatizados. E, como se não bastasse, privatizaram o mar, o céu, e as estrelas, ou seja, tomaram conta de tudo/e o Estado ficou sozinho. Se é verdade que os “elefantes comem […] até arrotar”, conforme diz o poeta, não deixa de ser verdade que, além do “Entrudo”, realizado na semana passada (13/02/2018), pouco ou nada resta para o povo. Este “é o próprio capim/que os elefantes pisoteiam”.

Este processo de privatização dos monumentos obedece ao desejo insaciável de ter em detrimento de ser, e, para uma sociedade como a nossa, não deixa de ser preocupante a perda ou o esquecimento de referências históricas promovida pela destruição, substituição ou a transferência para certas entidades de instituições cuja existência teria como finalidade a preservação da memória colectiva. Esta, muito mais do que um espaço físico, seria o espaço imaterial constituído por personalidades históricas que personificam um conjunto de virtudes (como a lealdade, a honestidade, a solidariedade, a justiça, etc.) que devem continuar a ser cultivadas no presente e no futuro.

Ergue-se assim um “Museu de Cera” que perpetua a memória de Hoji Ya Henda, Maria do Carmo Medina, Wanhenga Xitu e o já referenciado Ricardo de Mello. Personalidades que em períodos distintos da nossa História opuseram-se à injustiça, à violação dos Direitos Humanos e lutaram pela dignidade do angolano; entre o ter e o ser, elas optaram por aquilo que hoje, numa sociedade materialista e consumista, pode ser considerado uma utopia.

Neste museu há também espaço para o cidadão anónimo, votado ao esquecimento. “Ao Camarada Tombado em 1975”, o autor dedica um poema do qual retiro o trecho que segue: Hoje, volvidos quarenta anos, a branca rouquidão dos teus ossos me visita, e sinto/em cada som dos teus passos o instinto opiáceo do início milenar do mar.

1975 foi o ano da conquista e da proclamação da independência de Angola, mas também, do início da guerra civil de que o autor fala noutro poema intitulado Fado, uma guerra que ensanguentou o País. Diz o poeta que a terra angolana estava amarga de sangue/ a mandioca que comíamos tinha sabor de sangue/o café que bebíamos tinha a cor do sangue.

Se por um lado a independência não trouxe consigo a paz, a conquista desta em 2002 não significou o fim de derramamento do sangue do qual se alimenta o “anjo da morte” presente nas estradas e nos hospitais onde se assiste diariamente o fim tráfico da vida de muitos cidadãos.

Neste último, para onde os pacientes se deslocam, há carência de medicamentos, de seringa, enfim, do indispensável para salvar as suas vidas. A dor, o pranto e o luto tomam conta dos seus familiares e no início de um novo dia, diz o poeta, “a cidade acorda aos latidos da febre amarela”.

A “Rosa Oculta”, outro poema que consta nesta obra, seria deste modo uma espécie de guerra silenciosa que em 2016 foi travada pela onda de solidariedade que congregou cidadãos anónimos na busca de criação de condições que tornaram possível a assistência médica e medicamentosa dos pacientes atingidos, não pela bala, mas, sim, pelo surto da febre amarela.

O diálogo proposto pelo livro gravita a volta de questões que a todos, sem excepção, dizem respeito, razão pela qual somos convocados para participar do mesmo com o propósito de mudarmos o quadro actual em todos os domínios da vida nacional. E uma vez que a mudança parte do interior, é aí, no coração, que começa o diálogo, e, consequentemente, a mudança sugerida pela leitura que devemos fazer da obra.

Grato pela atenção dispensada.

Texto de apresentação do livro “Angola Me Diz Ainda”. Luanda: União dos Escritores Angolanos. 21.02.2018

 

 

 

Intelectuais arrogantes, orgulhosos ou prepotentes?

Existe um credo popular segundo o qual gente letrada tende a ser arrogante. Uma vez que as generalizações são enganosas, o correcto será pensar que esta afirmação aplica-se a apenas a alguns intelectuais cujo comportamento leva a que se chegue a esta conclusão.
E havendo necessidade de sustentar a «tese popular», nada melhor do que reflectir no (1) episódio protagonizado por um professor que não admitindo que o estudante (educadamente) o corrija, atira-se contra este dizendo que “tu não estás no meu nível!”, ou ainda (2) na disposição manifestada por uma grande sumidade em subir ao ring com o estudante que supostamente lhe retirava autoridade na sala de aula.
Que a academia é “um mundo cheio de pessoas muito orgulhosas, prepotentes”, isto não se dúvida. Que o diga o professor (ele mesmo um intelectual) que usou estas palavras para dar a conhecer a outra faceta da universidade ao seu estudante que acabava de entrar nesta instituição.
Neste festival de delírios pela ‘’(re) afirmação’’ da posição, prestígio e autoridade (incontestável?) adquiridos pelo título e a fama, encontramos também intelectuais que sentindo-se como verdadeiros semi-deuses, ou como diria alguém, Vice-Deus, nem sequer respondem a saudação dos seus «súbditos». E quando o fazem, o comportamento contrasta com a imagem que o leitor traz consigo depois de ter lido a «obra-prima» da autoria dos mesmos.
É o caso, entre muitos, de uma renomada intelectual que sendo saudada várias vezes, mantinha-se no mais absoluto silêncio. E quando saiu deste, não hesitou em disparar as balas que trazia consigo: “eu não tenho muito tempo para falar, sou muito ocupada”. 
A ilustre intelectual nem sequer tinha noção de que o motivo do contacto que se pretendia manter consigo era nada mais do que uma abordagem sobre algumas questões analisadas em alguns dos seus livros, por via dos quais passou a ser admirada pelo ilustre desconhecido. 
Será esta postura que espera de um (a) intelectual?
Que certos intelectuais desejam ser glorificados, honrados, disto não se duvida. Igualmente não se duvida que alguns sejam estranhos. Mas, quando o comportamento dos mesmos fica aquém do esperado, à margem dos princípios da boa convivência social, questiona-se se ainda são dignos de serem tratados como intelectuais e se ainda têm algum valor na sociedade.

A queda do último santo

Ao lermos o Antigo Testamento, somos informados que o sacerdócio era exercido por famílias predestinadas para o efeito e que o mesmo acontecia com o poder político cujo detentor transmitia-o ao seu filho.

Vigora assim um sistema no qual os filhos sucediam aos pais na liderança religiosa e política da Nação e no usufruto das regalias inerentes ao exercício das funções de sacerdote e de rei.

Contudo, não podemos pensar em nepotismo ou favorecimento de algum tipo, pois, o sistema que vigorava era nada mais do que reflexo da vontade do Altíssimo e ninguém ousava questionar por que razões apenas foram escolhidos e abençoados para exercer de tão nobres funções no seio do povo de um Deus que, afinal, não excluía ninguém.

Ser filho do sacerdote ou do rei pressupunha ter nascido já com qualidades requeridas, respectivamente, para o sacerdócio e para o trono. Em Angola, cuja população maioritariamente é cristã, alguns pregadores do Evangelho para os quais a teocracia é o melhor sistema político, tentaram durante algum tempo incutir na mente dos cidadãos a ideia de que o antigo Presidente da República fora escolhido e ungido por Deus para liderar o País. Tanto assim é que o uso de versículos bíblicos nos quais se apelava os judeus a respeitar o rei era usada para legitimar o exercício do seu poder de JES que, mais do que eleito pelo povo em 2012, fora, segundo diziam, eleito por Deus.

Para estes líderes religiosos, as decisões tomadas pelo antigo PR eram inquestionáveis e quem ousasse questioná-las seria alvo de sanções sobrenaturais. Tanto assim é que a gestão económica do País pelos filhos do antigo PR era considerada como um desígnio divino.

Ora, com o poder político a ser exercido agora por um novo Presidente e a queda dos santos deixados no altar, esperava-se que algum servo do Senhor tivesse a atitude que teve Natã com Davi quando este transgrediu com o preceituado por Deus. Haverá, porventura, algum servo do Altíssimo que ouse repreender o Titular do Poder Executivo por ter apeado do poder figuras tidas como predestinadas para exercê-lo?

O Titular do Poder Executivo já demonstrou ter noção de que a gestão de empresas públicas não constitui privilégio reservado apenas para uma família. Também sabe que a entrada no santíssimo lugar não constitui prerrogativa. Por este motivo, está rodeado de uma equipa com a qual pretende redimir a Nação do estado lastimável em que se encontra de ponto de vista financeiro e, sobretudo, de ponto de vista moral.

Mais importante ainda, é a noção que tem do primado da Constituição sobre os Estatutos do Partido presidido por um homem que não terá ensinado os seus filhos para que não se servissem da sua condição para obtenção de todo o tipo e facilidades.

As medidas tomadas por si, durante os 100 dias de governação, aumentaram as expectativas dos cidadãos e elevaram a sua auto-estima. O País parece ter transitado da teocracia para a democracia e, com ela, para a liberdade.

Almas angustiadas transbordam agora de alegria e o no coração do pacato cidadão renasce a esperança em dias melhores. E uma vez que estamos numa corrida de fundo, questiona-se se será possível manter o ritmo imprimido até aqui, ou se as forças do bloqueio prevalecerão sobre as acções do Executivo.

Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos.

 

O alarme tocou

O alarme tocou

Durante muito tempo, parecia ser consensual considerar Agostinho Neto como poeta-mor angolano. Este consenso aparente teria sido facilitado pelo regime instaurado em Angola a 11 de Novembro de 1975 avesso ao confronto de ideias, inclusive no seio da classe intelectual que incluía os escritores que, como se sabe, estavam filiados ao partido-Estado.

Com o advento da democracia, surgem agora estudos elaborados por respeitáveis académicos que refutam a tese oficial segundo a qual Agostinho Neto teria sido o poeta-mor.

Francisco Soares, estudioso da literatura angolana, elaborou um estudo interessante, No Cruzar dos Caminhos: pesquisa poética de Viriato da Cruz, no qual afirma que este último, pela influência que exerceu e pela qualidade da sua obra pode ser considerado “o paradigma da moderna poesia angolana e o seu máximo expoente poético”.

Seria errado pensar que este autor está sozinho na defesa da tese acima referida. Muito antes dele ter feito tal afirmação, o poeta Mário António dissera num artigo publicado no Boletim Cultura (1958?) que a poesia de Viriato da Cruz era uma poesia genuinamente angolana ao passo que a de Neto era uma poesia africana de expressão portuguesa.

José Carlos Venâncio e Manuel Ferreira qualificam-no como tendo sido um dos maiores poetas da lusofonia. Ao passo que José Eduardo Agualusa lamenta o facto de Viriato da Cruz ter morrido muito antes sem que tivesse tido explorado todo o potencia que tinha como “poeta e ensaísta”.

Num País como Angola cuja população é maioritariamente negra, a abordagem feita pelos autores citados é sempre vista em função da cor da pele.

E se precisarmos de exemplos bastará mencionar aqui o da cidadã angolana que, apercebendo-se de tais pronunciamentos foram feitos intelectuais brancos (maioritariamente), não hesitou em accionar o alarme: “essa gente é racista!!!”.

Embora o autor destas linhas tivesse dito haver lapas que discordam da tese defendida pelos estudiosos acima citados, a jovem manteve-se intransigente: “você pensa como eles porque te relacionas com eles”.

Mas, será ela a única a levantar o espectro racial quando pronunciamentos feitos por certas pessoas destacam o mestiço ou o branco em detrimento do negro? Haverá realmente alguma relação entre a cor da pele e a inteligência, talento e capacidade? Se a resposta for negativa, que motivo há para que insista em levantar a bandeira racial?

 

Transitar na escuridão

A transição de um ano para outro que ocorre no dia 31 de Dezembro de cada ano é um momento especial, de renovação da esperança e da fé de que o Ano Novo para o qual iremos transitar será melhor que aquele que apresta-se a chegar ao fim.

Esta crença acompanha praticamente todo o ser humano aumenta a escassas horas da passagem de ano durante o qual se esquecem os problemas porque passamos enquanto cidadãos de um País que queremos que progrida em todos os sentidos.

Tanto é assim que em plena euforia vivida enquanto festejamos a entrada num Ano Novo carregamos a utopia de que todos os problemas serão resolvidos, ultrapassados, agora que estamos noutro ano.

O ideal seria que este desejo começasse a ganhar corpo ou fosse alimentado logo no momento da passagem do ano em que o cidadão deseja que, no mínimo, os serviços e produtos básicos como o fornecimento da água e da energia, só para citar estes, lhe sejam fornecidos regularmente para que possa ter uma vida digna, normal.

Ao que parece, ainda estamos longo de ver este sonho realizado, razão pela qual preferimos usar o termo utopia por acharmos ser o que realmente traduz a desilusão de quem há escassas horas da transição para 2018 foi privado do fornecimento da energia eléctrica.

Sim. Se esta não tivesse sido a experiência vivida por nós, certamente não estaríamos aqui, logo no segundo dia do ano partilhando o inesperado com todos quantos a escassas horas da transição de ano desejaram-nos que fosse abençoada. Embora sejamos optimistas por natureza, factos como estes levam-nos a questionar a hora em que o fornecimento da energia eléctrica, da água potável, etc., deixará de ser um problema para ser aquilo que os cristãos consideram ser uma «bênção» que, por direito, deve ser usufruída pelo homem.

Transitar de um ano para outro às escuras é algo que não se recomenda a ninguém. Semelhante coisa se pode dizer para quem duvida da possibilidade de realização dos seus sonhos no Ano Novo para o qual transita. Contudo, determinados factos que ocorrem e que, directa ou indirectamente nos afectam, levam-nos pensar em sentido contrário.

É o caso do recentemente inaugurado ANGOSAT. Anos antes do seu lançamento falava-se de que com a sua entrada em funcionamento o País teria todos seus problemas resolvidos em matéria de comunicação. E a presença de ilustres e respeitáveis servos do Altíssimo entre os notáveis que se deslocaram à Rússia para testemunhar in loco o momento tão aguardado conferia solenidade ao acto com as habituais orações, aleluias e cânticos espirituais.

Em Luanda a expectativa era tanta e muitos terão sido aqueles  queno momento do lançamento da cápsula experimentaram uma sensação comparável apenas a de um intenso e deleitoso orgasmo!

Contudo, bastaram algumas horas para que a perda do controlo do satélite tivesse provocado um sentimento de indignação entre os cidadãos. Incrível esta capacidade de desiludir e frustrar as expectativas do cidadão!

Se por um lado, era expectável que tivéssemos feito um prognóstico positivo para este ano, do outro lado, não podemos deixar de reflectir sobre alguns factos negativos que ocorreram no final de 2017.

Desejar que 2018 seja um Ano Novo, é esperar que os velhos problemas sejam resolvidos. Portanto, o Novo Ano só poderá sê-lo na acepção plena da palavra se os velhos problemas forem resolvidos.

 

 

 

 

 

Hipocrisia e incoerência

 

Lembro do tempo em que juntamente as outras crianças vivia a euforia pelo Natal, época do ano em que muitas famílias sentem-se como que obrigadas a ter a mesa o bacalhau, o bolo-rei e outros mimos tidos como indispensáveis como os presentes e a árvore de Natal.

Por força da educação que tive, ia à Igreja e como acólito – responsabilidade que a época eu exercia com muito zelo – vivia intensamente este momento auxiliando o padre na celebração da «santa missa» alusiva ao nascimento do «Menino-Deus».

Bem, o tempo passou e as dificuldades económicas por que a minha família, particularmente a minha falecida mãe, passava não permitiam que, tal como no passado, pudéssemos celebrar esta data em que supostamente nasceu o «Menino-Deus».

Foi neste período (1998) em que, pese embora continuasse a ser um cristão respeitado, comecei a perder a euforia pelo Natal. Mesmo tendo ido viver para a casa do meu irmão no Lubango, em 2001, detentor de algumas posses, afastava-me das celebrações do Natal.

E quando de regresso a Luanda, ocorrido em Janeiro de 2002, fui viver sozinho, o Natal continuou a ser para mim um período normal do ano que aproveito para descansar, ler, escrever, enfim, passar o dia se fosse um outro dia qualquer.

Isto apesar de o meu salário dar-me a possibilidade de, juntamente a família que constituí, fazer o que todas as famílias fazem neste dia.

O engraçado para mim tem sido a postura evidenciada por muitos cristãos pentecostais (também o sou, mas com pensamento próprio) nesta fase do ano durante o qual acusam a Igreja Católica disto e daquilo, afirmam que esta não tem uma doutrina fundamentada na Bíblia, sendo o nascimento de Cristo cuja data não vem indicada nas Sagradas Escrituras apenas um dos exemplos com os quais sustentam este e outros argumentos.

Contudo, é difícil encontrar neste período do mês de Dezembro um cristão pentecostal (falo aqui de crentes afectos às Igrejas Universal, Assembleia de Deus Pentecostal, Bom Deus, e tantas outras que acreditam em curas milagrosas) que não esteja profundamente envolvido com o Natal, ou que não tenha recebido o tão desejado cabaz entregue à si, enquanto trabalhador, pela entidade patronal para que festeje «condignamente» o Natal.

O curioso é que histórias como estas dizem respeito tanto as ovelhas do rebanho quanto aos pastores deste que num primeiro momento os vemos justificando nas suas pregações os motivos pelos quais o Natal não deve ser celebrado – afirmam, e com razão, que a festa inicialmente pagã alusiva ao nascimento do Rei Sol foi «santificada» pela Igreja Católica que a instituiu, não tendo por isto raízes cristãs -, num segundo momento ei-los recebendo cabazes entregues pelas empresas nas quais trabalham e consumindo-os juntamente as suas respectivas famílias.

Haverá, porventura, seriedade e coerência da parte de quem apela ao rebanho para que não celebre o Natal, mas em contrapartida recebe o cabaz?

Tenha-se em conta que certos arautos do Evangelho com cargos de chefia nas empresas onde trabalham recebem cabazes de fazer inveja ao comum dos mortais, havendo mesmo aqueles que, devido as relações privilegiadas com membros do Governo eram, nos tempos das vacas gordas, agraciados com outras «bênçãos» com as quais enchiam as cozinhas das suas casas.

Mas a comédia não termina aqui.

Conhece-se a história de um diácono pentecostal que, apesar de não celebrar o Natal, recebe o cabaz que lhe é dado na empresa onde trabalha. Questionado pelo colega sobre a recepçao do cabaz, uma vez que «não celebra o Natal» (?), o ilustre servo do Altíssimo argumenta tratar-se de um direito do trabalhador. Pois é…

Se, por um lado rir faz bem à saúde, do outro lado, temos motivos mais do que suficientes para rir quando por algum motivo estivermos entristecidos. Para o efeito, basta recordar o que vemos e temos visto nesta vida.

 

 

 

Vaidades e modismo do nosso tempo

Numa das crônicas escrita por Sousa Jamba, publicada no Novo Jornal, em homenagem a Gerald Bender o escritor citava-o como um acadêmico que tendo acompanhado a transição de Angola para o multipartidarismo mostrava-se preocupado com a sociedade angolana que dava mostras que no futuro os estudos e as ideias não teriam valor.
De facto, durante a minha adolescência ouvia frequentemente conversas nas quais dos intervenientes, meus amigos e vizinhos, diziam que não adiantava estudar porque, ainda que estudássemos, nunca seríamos valorizados e que o filho do ministro ou do PR herdaria o lugar do pai no Governo.
Com o advento da paz, e o surgimento de universidades privadas tal qual fast food (isto é, criadas ás pressas, daí a péssima qualidade do ensino), assistiu-se a corrida por uma vaga no seio destas e ao aparecimento, quatro anos após a conclusão do curso, de um ‘número incontável de Doutores que nunca sequer escreveram um artigo científico ou de opinião que pudesse ser publicado numa revista científica ou num pasquim como dizia o político.
Será que a História termina aí?
No meio desta azáfama, apareceram também os analistas, para uns, comentadores/comentaristas a debitarem argumentos sobre tudo e mais alguma coisa, não havendo reconhecimento da falta de domínio de determinadas matérias.
Bem, ficaria por aqui, porém, lembrei-me terem surgido também uns especialistas que volta meia ocupam espaço na mídia. Criaram-se também uns tantos ‘Comités de Especialidade”, não importa se o profissional é ou não competente no exercício da sua profissão.
Na verdade, ser analista político é hoje o objectivo perseguido por muitos estudantes universitários, particularmente dos cursos de R. Internacionais, Direito e C. Política. Analista económico?
Sim. Existem. Mas, o que está na moda, o que ”bate”. como se diz, é ser mesmo analista político. Ter prestígio, boa retórica, e ser aplaudido, isto sim.
Entende-se assim o motivo pelo qual cursos como o de História e Antropologia, para não mais falar de Filosofia, continuem a ser parente pobre no seio da juventude que a todo custo deseja ter boa vida após a conclusão do curso universitário.
Ter a licenciatura, mestrado, ou doutoramento é para muitos indivíduos condição indispensável para que se tenha automaticamente um cargo de chefia e mordomias invejáveis.
Resultado: vemos em muitas empresas doutorados e mestrados incapazes de escrever sequer um documento, ou ainda uma frase perceptível.
Angola, Angola, Angola. Para onde vais?