Apenas uma vez

O desejo de possuir a mulher é tão forte que, não raras vezes, o homem apaixonado vive imaginando o dia em que terá a oportunidade de desfrutar da maravilha feminina depois de contemplar a paisagem colocada diante dos seus olhos.

A ansiedade é tanta que a entrega de presentes ocorre como manifestação do desejo que o apaixonado é incapaz de exteriorizar devido a vergonha, ou principalmente quando se é gago como meu amigo.

Gilo, como se chama, é o nome associado à paixão que consumia o jovem enlouquecido pela vizinha que, embora fosse gorda, era aos seus olhos a mulher mais linda do mundo.

As conversas do meu amigo eram dedicadas exclusivamente a celebração das virtudes da sua amada. Com ela desejava casar e constituir família. Todavia, tardava em abrir o seu coração, arrancar do seu interior o sentimento que tinha pela Tina que, a cada vez que passava diante do seu apaixonado, aumentava o seu sofrimento.

Empenhado em vencer o desafio que representa para todo o homem a conquista do coração da mulher, o meu amigo veio num dia desses ao meu encontro, pois tinha-me como seu confidente. O seu semblante expressava felicidade. Curioso, perguntei-lhe se trazia novidade. A resposta foi direita:

– Amigo, comprei para ela uma cueca preta e uma cueca vermelha. Entrego a preta, a vermelha, ou as duas? – questionou-me.

O meu amigo não pensava noutro assunto que não fosse a Tina. Ela era o seu mundo, preenchia a sua imaginação durante o dia inteiro e pensava adentrar o líquido sagrado no corpo da sua querida.

– Eu só quero uma vez, dizia o apaixonado.

O plano que viria a ser conhecido por todo o mundo, pois, era incapaz de partilha-lho apenas comigo, viria a tornar-se numa piada monumental, havendo ainda pessoas que, nos dias que correm, soltam gargalhadas quando se recordam dela.

Passaram-se vinte e cinco anos e durante este tempo muitos dos seus amigos casaram, geraram filhos, inclusive a Tina que, em respeito d tradição bantu, já conta com uma equipa de futebol em casa. Contudo, o meu amigo continua solteiro. As moças rejeitam-no por ser gago e pouco atraente.

Contudo, e embora continue a viver em casa do pai, o Gilo mantêm firme a esperança de que um dia possa vir a realizar o sonho que carrega. Uma vez apenas é tudo que ele deseja.

Mas, quem irá proporcionar-lhe este momento? Quem?

 

 

 

 

 

O acólito

Existe a tendência, no seio da Igreja, de se elevar o acólito a uma posição que, por vezes, se aproxima a que é ocupada pelo santo. Com a batina a cobrir-lhe o corpo, o acólito infunde santidade, solenidade e responsabilidade a todos quantos diariamente acompanham o ofício que exerce com zelo e dedicação.
Este ofício ao qual alguns jovens dedicam parte significativa do seu tempo confere alguma visibilidade e por meio dele conquista-se admiração e prestígio no seio da Igreja. Tanto assim é que algumas senhoras aconselham os seus filhos para que sigam este caminho que consideram ser o da santidade e da pureza.
– Faça parte do grupo dos bons rapazes, filho. Vale a pena ser acólito. Este é refrão que a mãe repete frequentemente diante do seu filho.
Na verdade, várias são as pessoas que integraram o grupo dos acólitos com o propósito de obter o privilégio de conviver com os sacerdotes, bispos e cardeais, e a fama de que resulta o exercício deste ofício. Tanto assim é que moças há que desejam tanto ter um namorado que seja rico espiritualmente e cheio de fama na Igreja.
O Miguel, que aos doze anos tornara-se acólito, era de facto um jovem dedicado à igreja. Os seus pares respeitavam-no pela seriedade, devoção e responsabilidade que imprimia no exercício do seu ofício. Os vizinhos chamavam-lhe de padre, outras vezes de Papa e era consultado pelos mundanos que tivessem alguma dúvida sobre religião. Jovem culto e inteligente é o que ele era.
Ora, o jovem que levava a sua vida de acordo com os preceitos da Igreja rejeitava os encontros com as jovens que com ele desejavam ter uma relação extra espiritual. Certa vez, quando saía da Igreja em direção a sua casa, foi interpolado por uma moça que trazia consigo um projecto bastante aliciante:
– Olá. Tudo bem?
– Eu estou bem. E tu?
– Estou óptima.
A moça dispensava formalidades. Foi direita ao assunto:
– Tu não sentes excitação? Estou há algum tempo esperando por ti.
O jovem que tinha os olhos fixos na moça, baixou-os. A moça, desinibida e experiente, reforçou o ataque:
– Tu deves ter um martelo grosso e cumprido. Posso vê-lo?
Com o coração aos pulos, o jovem pôs-se a correr deixando para trás a tentação. Tendo chegado em casa, foi direitinho ao seu quarto e fechou a porta do quarto e prostrou-se de imediato:
– As mãos que pousaram sobre mim, Senhor, deixaram as marcas do pecado. Santifica-me meu Senhor.
Terminado o retiro que teve a duração de uma semana, o jovem reapareceu fortalecido e restaurado espiritualmente. A vizinhança, como sempre, cobria-o com louvores:
– Aqui está o nosso santo.
A vida do acólito era realmente um mimo. Orgulho da família. Porém, ninguém sabia o que ele fazia no oculto. O trabalho manual proporcionava-lhe o prazer negado a legião feminina que o desejava ardentemente.
O tempo passou e, apesar de tudo, continua sendo um bom exemplo para muitos que procuram segui-lo.