O acólito

Existe a tendência, no seio da Igreja, de se elevar o acólito a uma posição que, por vezes, se aproxima a que é ocupada pelo santo. Com a batina a cobrir-lhe o corpo, o acólito infunde santidade, solenidade e responsabilidade a todos quantos diariamente acompanham o ofício que exerce com zelo e dedicação.
Este ofício ao qual alguns jovens dedicam parte significativa do seu tempo confere alguma visibilidade e por meio dele conquista-se admiração e prestígio no seio da Igreja. Tanto assim é que algumas senhoras aconselham os seus filhos para que sigam este caminho que consideram ser o da santidade e da pureza.
– Faça parte do grupo dos bons rapazes, filho. Vale a pena ser acólito. Este é refrão que a mãe repete frequentemente diante do seu filho.
Na verdade, várias são as pessoas que integraram o grupo dos acólitos com o propósito de obter o privilégio de conviver com os sacerdotes, bispos e cardeais, e a fama de que resulta o exercício deste ofício. Tanto assim é que moças há que desejam tanto ter um namorado que seja rico espiritualmente e cheio de fama na Igreja.
O Miguel, que aos doze anos tornara-se acólito, era de facto um jovem dedicado à igreja. Os seus pares respeitavam-no pela seriedade, devoção e responsabilidade que imprimia no exercício do seu ofício. Os vizinhos chamavam-lhe de padre, outras vezes de Papa e era consultado pelos mundanos que tivessem alguma dúvida sobre religião. Jovem culto e inteligente é o que ele era.
Ora, o jovem que levava a sua vida de acordo com os preceitos da Igreja rejeitava os encontros com as jovens que com ele desejavam ter uma relação extra espiritual. Certa vez, quando saía da Igreja em direção a sua casa, foi interpolado por uma moça que trazia consigo um projecto bastante aliciante:
– Olá. Tudo bem?
– Eu estou bem. E tu?
– Estou óptima.
A moça dispensava formalidades. Foi direita ao assunto:
– Tu não sentes excitação? Estou há algum tempo esperando por ti.
O jovem que tinha os olhos fixos na moça, baixou-os. A moça, desinibida e experiente, reforçou o ataque:
– Tu deves ter um martelo grosso e cumprido. Posso vê-lo?
Com o coração aos pulos, o jovem pôs-se a correr deixando para trás a tentação. Tendo chegado em casa, foi direitinho ao seu quarto e fechou a porta do quarto e prostrou-se de imediato:
– As mãos que pousaram sobre mim, Senhor, deixaram as marcas do pecado. Santifica-me meu Senhor.
Terminado o retiro que teve a duração de uma semana, o jovem reapareceu fortalecido e restaurado espiritualmente. A vizinhança, como sempre, cobria-o com louvores:
– Aqui está o nosso santo.
A vida do acólito era realmente um mimo. Orgulho da família. Porém, ninguém sabia o que ele fazia no oculto. O trabalho manual proporcionava-lhe o prazer negado a legião feminina que o desejava ardentemente.
O tempo passou e, apesar de tudo, continua sendo um bom exemplo para muitos que procuram segui-lo.

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