Hipocrisia e incoerência

 

Lembro do tempo em que juntamente as outras crianças vivia a euforia pelo Natal, época do ano em que muitas famílias sentem-se como que obrigadas a ter a mesa o bacalhau, o bolo-rei e outros mimos tidos como indispensáveis como os presentes e a árvore de Natal.

Por força da educação que tive, ia à Igreja e como acólito – responsabilidade que a época eu exercia com muito zelo – vivia intensamente este momento auxiliando o padre na celebração da «santa missa» alusiva ao nascimento do «Menino-Deus».

Bem, o tempo passou e as dificuldades económicas por que a minha família, particularmente a minha falecida mãe, passava não permitiam que, tal como no passado, pudéssemos celebrar esta data em que supostamente nasceu o «Menino-Deus».

Foi neste período (1998) em que, pese embora continuasse a ser um cristão respeitado, comecei a perder a euforia pelo Natal. Mesmo tendo ido viver para a casa do meu irmão no Lubango, em 2001, detentor de algumas posses, afastava-me das celebrações do Natal.

E quando de regresso a Luanda, ocorrido em Janeiro de 2002, fui viver sozinho, o Natal continuou a ser para mim um período normal do ano que aproveito para descansar, ler, escrever, enfim, passar o dia se fosse um outro dia qualquer.

Isto apesar de o meu salário dar-me a possibilidade de, juntamente a família que constituí, fazer o que todas as famílias fazem neste dia.

O engraçado para mim tem sido a postura evidenciada por muitos cristãos pentecostais (também o sou, mas com pensamento próprio) nesta fase do ano durante o qual acusam a Igreja Católica disto e daquilo, afirmam que esta não tem uma doutrina fundamentada na Bíblia, sendo o nascimento de Cristo cuja data não vem indicada nas Sagradas Escrituras apenas um dos exemplos com os quais sustentam este e outros argumentos.

Contudo, é difícil encontrar neste período do mês de Dezembro um cristão pentecostal (falo aqui de crentes afectos às Igrejas Universal, Assembleia de Deus Pentecostal, Bom Deus, e tantas outras que acreditam em curas milagrosas) que não esteja profundamente envolvido com o Natal, ou que não tenha recebido o tão desejado cabaz entregue à si, enquanto trabalhador, pela entidade patronal para que festeje «condignamente» o Natal.

O curioso é que histórias como estas dizem respeito tanto as ovelhas do rebanho quanto aos pastores deste que num primeiro momento os vemos justificando nas suas pregações os motivos pelos quais o Natal não deve ser celebrado – afirmam, e com razão, que a festa inicialmente pagã alusiva ao nascimento do Rei Sol foi «santificada» pela Igreja Católica que a instituiu, não tendo por isto raízes cristãs -, num segundo momento ei-los recebendo cabazes entregues pelas empresas nas quais trabalham e consumindo-os juntamente as suas respectivas famílias.

Haverá, porventura, seriedade e coerência da parte de quem apela ao rebanho para que não celebre o Natal, mas em contrapartida recebe o cabaz?

Tenha-se em conta que certos arautos do Evangelho com cargos de chefia nas empresas onde trabalham recebem cabazes de fazer inveja ao comum dos mortais, havendo mesmo aqueles que, devido as relações privilegiadas com membros do Governo eram, nos tempos das vacas gordas, agraciados com outras «bênçãos» com as quais enchiam as cozinhas das suas casas.

Mas a comédia não termina aqui.

Conhece-se a história de um diácono pentecostal que, apesar de não celebrar o Natal, recebe o cabaz que lhe é dado na empresa onde trabalha. Questionado pelo colega sobre a recepçao do cabaz, uma vez que «não celebra o Natal» (?), o ilustre servo do Altíssimo argumenta tratar-se de um direito do trabalhador. Pois é…

Se, por um lado rir faz bem à saúde, do outro lado, temos motivos mais do que suficientes para rir quando por algum motivo estivermos entristecidos. Para o efeito, basta recordar o que vemos e temos visto nesta vida.

 

 

 

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