Charlatanismo e negócios espirituais

No princípio da década de 90 do século, era frequentemente ouvir-se informações de grupos religiosos cujos líderes alegavam estavam investidos poderes espirituais por meio dos quais realizavam milagres como curar enfermos e ressuscitar pessoas.
Trata-se de confissões religiosas incluídas no movimento pentecostal cujos integrantes acreditam no cumprimento das promessas feita por Jesus aos seus discípulos, de entre elas, «Aquele que crer em Mim (Jesus), fará maiores obras (entenda-se milagres) que as minhas», e noutras passagens bíblicas como «Jesus é o mesmo ontem, hoje e eternamente» (por este motivo os milagres que aconteceram nos tempos bíblicos podem acontecer actualmente), e que «os milagres seguirão aqueles que crerem» (os descrentes não poderão nunca ver milagres algum a acontecer nas suas vidas), etc..
Outras passagens bíblicas poderiam ser mencionadas aqui, mas as que foram citadas são suficientes para que conheçamos os fundamentos da doutrina das chamadas «Igrejas Pentecostais» cujos membros acreditam ser a extensão da Igreja Primitiva de que fala a Bíblia no livro dos Actos dos Apóstolos que, depois do Pentecoste, operaram sinais e maravilhas.
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Ora, na segunda metade da década de 90, surgiu uma tal de «Igreja» Pentecostal do Poder de Deus em Angola (IPPDA), localizada no Prenda, cuja doutrina, ao que parece, fundamenta-se nas passagens acima citadas e noutras, relativas a ocorrência de curas e milagres.
Tanto assim é que, fez-se uma campanha onde um dos responsáveis desta confissão, acompanhando de uma menina, andava de rua em rua apresentando-a como alguém que tinha morrido e ressuscitado. «Você que ainda não se converteu, que não aceitou à Cristo, venha ouvir esta menina, ela tem uma mensagem para ti. Ela morreu, mas pela graça de Nossos Senhor Jesus Cristo ressuscitou» – clamava o pregador.
Passado algum tempo, descobriu-se que a dita «Igreja» promovera uma campanha de «jejum e oração» com duração de duas semanas. Não tendo a menina de 8 anos suportado a privação dos alimentos de que carecia o seu corpo, desmaiou.
E quando recuperou … os membros da «Igreja» agradeceram a Deus por a ter ressuscitado. Daí o apelo para que os ímpios acolhessem nos seus corações a mensagem divina que a «menina» trazia.
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Numa outra confissão, o «profeta» que dizia ter sido enviado pelo Senhor apelava, no final da pregação, aos fiéis que padecessem de uma doença que fossem diante do altar para que fossem libertos das enfermidades. Entre a multidão encontrava-se um jovem que usava óculos.
Enquanto orava, sentiu algo diferente; os olhos ficaram como no passado quando ainda não os usava. O «profeta» retirou-os e disse que doravante eles não mais seriam usados. Pois, a salvação havia chegado.
Em menos de duas semanas, o jovem sentiu novamente os sintomas ligados a miopia e usou novamente os seus óculos que tinham sido guardados na Igreja.
Ultimamente fez manchete na imprensa e nas redes sociais a informação de que em Benguela supostos «pastores» terão cobrado a familiares de uma jovem que falecera o valor de 350.000.00 kwanzas para que pudessem ressuscita-la.
O facto que está a ser investigado pelas autoridades competentes traz a tona mais uma vez o debate interminável sobre o fenómeno religioso e o combate ao surgimento de seitas. Impedir o seu surgimento é tarefa impossível de ser realizada, porque o Mestre alertou os seus discípulos de que muitos surgiriam em Seu Nome e que os tempos vindouros seriam difíceis e marcados pelo aparecimento de falsos profetas que até mesmo muitos escolhidos seriam enganados.
Se é verdade que, conforme já dito, Estado algum é capaz de impedir o aparecimento de seitas, não deixa de ser verdade que a massificação do ensino (de qualidade, sublinha-se!), e, consequentemente, o aumento da massa crítica, reduz o espaço de actuação de charlatães e de indivíduos dedicados aos negócios espirituais.
A prevalência do quadro actual favorece o surgimento de lobos travestidos de ovelhas.