O alarme tocou

O alarme tocou

Durante muito tempo, parecia ser consensual considerar Agostinho Neto como poeta-mor angolano. Este consenso aparente teria sido facilitado pelo regime instaurado em Angola a 11 de Novembro de 1975 avesso ao confronto de ideias, inclusive no seio da classe intelectual que incluía os escritores que, como se sabe, estavam filiados ao partido-Estado.

Com o advento da democracia, surgem agora estudos elaborados por respeitáveis académicos que refutam a tese oficial segundo a qual Agostinho Neto teria sido o poeta-mor.

Francisco Soares, estudioso da literatura angolana, elaborou um estudo interessante, No Cruzar dos Caminhos: pesquisa poética de Viriato da Cruz, no qual afirma que este último, pela influência que exerceu e pela qualidade da sua obra pode ser considerado “o paradigma da moderna poesia angolana e o seu máximo expoente poético”.

Seria errado pensar que este autor está sozinho na defesa da tese acima referida. Muito antes dele ter feito tal afirmação, o poeta Mário António dissera num artigo publicado no Boletim Cultura (1958?) que a poesia de Viriato da Cruz era uma poesia genuinamente angolana ao passo que a de Neto era uma poesia africana de expressão portuguesa.

José Carlos Venâncio e Manuel Ferreira qualificam-no como tendo sido um dos maiores poetas da lusofonia. Ao passo que José Eduardo Agualusa lamenta o facto de Viriato da Cruz ter morrido muito antes sem que tivesse tido explorado todo o potencia que tinha como “poeta e ensaísta”.

Num País como Angola cuja população é maioritariamente negra, a abordagem feita pelos autores citados é sempre vista em função da cor da pele.

E se precisarmos de exemplos bastará mencionar aqui o da cidadã angolana que, apercebendo-se de tais pronunciamentos foram feitos intelectuais brancos (maioritariamente), não hesitou em accionar o alarme: “essa gente é racista!!!”.

Embora o autor destas linhas tivesse dito haver lapas que discordam da tese defendida pelos estudiosos acima citados, a jovem manteve-se intransigente: “você pensa como eles porque te relacionas com eles”.

Mas, será ela a única a levantar o espectro racial quando pronunciamentos feitos por certas pessoas destacam o mestiço ou o branco em detrimento do negro? Haverá realmente alguma relação entre a cor da pele e a inteligência, talento e capacidade? Se a resposta for negativa, que motivo há para que insista em levantar a bandeira racial?

 

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