A queda do último santo

Ao lermos o Antigo Testamento, somos informados que o sacerdócio era exercido por famílias predestinadas para o efeito e que o mesmo acontecia com o poder político cujo detentor transmitia-o ao seu filho.

Vigora assim um sistema no qual os filhos sucediam aos pais na liderança religiosa e política da Nação e no usufruto das regalias inerentes ao exercício das funções de sacerdote e de rei.

Contudo, não podemos pensar em nepotismo ou favorecimento de algum tipo, pois, o sistema que vigorava era nada mais do que reflexo da vontade do Altíssimo e ninguém ousava questionar por que razões apenas foram escolhidos e abençoados para exercer de tão nobres funções no seio do povo de um Deus que, afinal, não excluía ninguém.

Ser filho do sacerdote ou do rei pressupunha ter nascido já com qualidades requeridas, respectivamente, para o sacerdócio e para o trono. Em Angola, cuja população maioritariamente é cristã, alguns pregadores do Evangelho para os quais a teocracia é o melhor sistema político, tentaram durante algum tempo incutir na mente dos cidadãos a ideia de que o antigo Presidente da República fora escolhido e ungido por Deus para liderar o País. Tanto assim é que o uso de versículos bíblicos nos quais se apelava os judeus a respeitar o rei era usada para legitimar o exercício do seu poder de JES que, mais do que eleito pelo povo em 2012, fora, segundo diziam, eleito por Deus.

Para estes líderes religiosos, as decisões tomadas pelo antigo PR eram inquestionáveis e quem ousasse questioná-las seria alvo de sanções sobrenaturais. Tanto assim é que a gestão económica do País pelos filhos do antigo PR era considerada como um desígnio divino.

Ora, com o poder político a ser exercido agora por um novo Presidente e a queda dos santos deixados no altar, esperava-se que algum servo do Senhor tivesse a atitude que teve Natã com Davi quando este transgrediu com o preceituado por Deus. Haverá, porventura, algum servo do Altíssimo que ouse repreender o Titular do Poder Executivo por ter apeado do poder figuras tidas como predestinadas para exercê-lo?

O Titular do Poder Executivo já demonstrou ter noção de que a gestão de empresas públicas não constitui privilégio reservado apenas para uma família. Também sabe que a entrada no santíssimo lugar não constitui prerrogativa. Por este motivo, está rodeado de uma equipa com a qual pretende redimir a Nação do estado lastimável em que se encontra de ponto de vista financeiro e, sobretudo, de ponto de vista moral.

Mais importante ainda, é a noção que tem do primado da Constituição sobre os Estatutos do Partido presidido por um homem que não terá ensinado os seus filhos para que não se servissem da sua condição para obtenção de todo o tipo e facilidades.

As medidas tomadas por si, durante os 100 dias de governação, aumentaram as expectativas dos cidadãos e elevaram a sua auto-estima. O País parece ter transitado da teocracia para a democracia e, com ela, para a liberdade.

Almas angustiadas transbordam agora de alegria e o no coração do pacato cidadão renasce a esperança em dias melhores. E uma vez que estamos numa corrida de fundo, questiona-se se será possível manter o ritmo imprimido até aqui, ou se as forças do bloqueio prevalecerão sobre as acções do Executivo.

Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos.

 

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