“Angola Me Diz Ainda” de José Luís Mendonça

Excelentíssima representante da União dos Escritores Angolanos
Ilustres escritoras e escritores
Distintos convidados
Minhas senhoras e meus senhores

 

Permitam-me, antes de tudo, felicitar o escritor José Luís Mendonça pela publicação da sua obra e manifestar a minha profunda gratidão pelo honroso convite que me foi formulado para apresentá-la.

Apesar de ser um leigo em matéria de Literatura, foi-me difícil negar o desafio proposto pelo autor da obra. Portanto, é na qualidade de leitor que me posiciono enquanto apresentador de “Angola Me Diz Ainda”.

Esta obra que, segundo o autor, dá sequência ao livro de Agostinho Neto, “Sagrada Esperança”, é constituída por 54 poemas escritos na década de 80 e de 90 do século XX e nas duas primeiras do século XXI, caracterizadas, respectivamente, pela restrição das liberdades fundamentais e pelo pluralismo de ideias, razão pela qual somente agora ela é publicada.

“Angola Me Diz Ainda”, poema que dá título à obra, é o retrato dos muitos problemas (que vão do político ao social, não deixando de haver os de natureza económica) que afligem uma sociedade onde a corrupção tornou-se o meio de enriquecimento de uma minoria detentora de poder financeiro que se mostra indiferente com o sofrimento da maioria dos cidadãos, que, pouco ou nada tendo, lutam para sobreviver através da venda de sacos de água ou de cerveja, negócios feitos na rua e a porta da casa.

Há neste poema um lamento de quem se sente inconformado com a realidade sociopolítica marcada pela pobreza extrema, a impunidade, a imposição do silêncio e do medo agravada com o desaparecimento trágico de dois cidadãos, Cassule e Kamulingue, que reivindicavam os seus direitos, e de um outro, Cherokee, apreciador da música do rapper MCK.

Final trágico também teve o jornalista Ricardo de Mello, director do Imparcial Fax. A sua morte ocorreu num período (1995) em que a imprensa independente, crítica ao poder político, dava os primeiros passos num País onde a comunicação social foi, durante os primeiros 15 anos de independência, apêndice do partido-Estado.

José Luís Mendonça, que além de poeta é jornalista, presta assim homenagem ao seu antigo colega de profissão num poema que cito de seguida:

Em nome da liberdade

de imprensa te imolaste

ao deus chamado Trilhões.

 

Tombaste na frieza

das escadas que a política constrói

para subir quem manda e descer

quem não tem mais nada a perder

que a própria Vida.

 

Ricardo, a tua morte não calou

a maneira torta do regime, mas

um dia hás de subir com tua voz Imparcial

as escadas da memória onde caíste

segurado pelas bocas

de dizer nosso país.

 

O predomínio do interesse pessoal sobre o interesse colectivo é um dos sintomas de uma sociedade onde a ganância e a apropriação de bens públicos com ou sem a cobertura da lei parece não ter fim.

Não admira então que alguns monumentos tenham sido privatizados. E, como se não bastasse, privatizaram o mar, o céu, e as estrelas, ou seja, tomaram conta de tudo/e o Estado ficou sozinho. Se é verdade que os “elefantes comem […] até arrotar”, conforme diz o poeta, não deixa de ser verdade que, além do “Entrudo”, realizado na semana passada (13/02/2018), pouco ou nada resta para o povo. Este “é o próprio capim/que os elefantes pisoteiam”.

Este processo de privatização dos monumentos obedece ao desejo insaciável de ter em detrimento de ser, e, para uma sociedade como a nossa, não deixa de ser preocupante a perda ou o esquecimento de referências históricas promovida pela destruição, substituição ou a transferência para certas entidades de instituições cuja existência teria como finalidade a preservação da memória colectiva. Esta, muito mais do que um espaço físico, seria o espaço imaterial constituído por personalidades históricas que personificam um conjunto de virtudes (como a lealdade, a honestidade, a solidariedade, a justiça, etc.) que devem continuar a ser cultivadas no presente e no futuro.

Ergue-se assim um “Museu de Cera” que perpetua a memória de Hoji Ya Henda, Maria do Carmo Medina, Wanhenga Xitu e o já referenciado Ricardo de Mello. Personalidades que em períodos distintos da nossa História opuseram-se à injustiça, à violação dos Direitos Humanos e lutaram pela dignidade do angolano; entre o ter e o ser, elas optaram por aquilo que hoje, numa sociedade materialista e consumista, pode ser considerado uma utopia.

Neste museu há também espaço para o cidadão anónimo, votado ao esquecimento. “Ao Camarada Tombado em 1975”, o autor dedica um poema do qual retiro o trecho que segue: Hoje, volvidos quarenta anos, a branca rouquidão dos teus ossos me visita, e sinto/em cada som dos teus passos o instinto opiáceo do início milenar do mar.

1975 foi o ano da conquista e da proclamação da independência de Angola, mas também, do início da guerra civil de que o autor fala noutro poema intitulado Fado, uma guerra que ensanguentou o País. Diz o poeta que a terra angolana estava amarga de sangue/ a mandioca que comíamos tinha sabor de sangue/o café que bebíamos tinha a cor do sangue.

Se por um lado a independência não trouxe consigo a paz, a conquista desta em 2002 não significou o fim de derramamento do sangue do qual se alimenta o “anjo da morte” presente nas estradas e nos hospitais onde se assiste diariamente o fim tráfico da vida de muitos cidadãos.

Neste último, para onde os pacientes se deslocam, há carência de medicamentos, de seringa, enfim, do indispensável para salvar as suas vidas. A dor, o pranto e o luto tomam conta dos seus familiares e no início de um novo dia, diz o poeta, “a cidade acorda aos latidos da febre amarela”.

A “Rosa Oculta”, outro poema que consta nesta obra, seria deste modo uma espécie de guerra silenciosa que em 2016 foi travada pela onda de solidariedade que congregou cidadãos anónimos na busca de criação de condições que tornaram possível a assistência médica e medicamentosa dos pacientes atingidos, não pela bala, mas, sim, pelo surto da febre amarela.

O diálogo proposto pelo livro gravita a volta de questões que a todos, sem excepção, dizem respeito, razão pela qual somos convocados para participar do mesmo com o propósito de mudarmos o quadro actual em todos os domínios da vida nacional. E uma vez que a mudança parte do interior, é aí, no coração, que começa o diálogo, e, consequentemente, a mudança sugerida pela leitura que devemos fazer da obra.

Grato pela atenção dispensada.

Texto de apresentação do livro “Angola Me Diz Ainda”. Luanda: União dos Escritores Angolanos. 21.02.2018

 

 

 

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