O princípio do fim do monopólio da informação

Será possível viver sem informação num mundo como este? A questão justifica-se por, contrariamente ao que se possa dizer, existirem pessoas que em pleno século XXI estão alheias aos factos que ocorrem dentro e fora do seu País por conta da restrição do acesso a este bem precioso.

Para mim, a informação é tão importante que, quando chego a uma Província, preocupo-me imediatamente em sintonizar as emissoras radiofónicas que nela existem com o propósito de manter-me informado sobre o que se passa em Angola e além-fronteiras. Trata-se de um ritual celebrado constantemente nestas circunstâncias e, ao que parece, continuará a fazer parte da minha forma de ser e de estar na vida neste mundo que, diariamente, regista ocorrências noticiadas pela imprensa.

Infelizmente esta necessidade nem sempre é satisfeita quando me encontro fora de Luanda devido a falta de diversidade de informação. Com «excepção» de Benguela, Lubango e Huambo, nas restantes cidades do País apenas existem órgãos de comunicação social públicos, nomeadamente, a TPA, a Rádio Nacional de Angola e o Jornal de Angola.

Durante a minha estadia, em 2017, na cidade do Huambo para onde me desloquei para gozar parte das minhas férias, tive uma sensação indiscritível motivada pela falta de informação diversificada. Nesta cidade, além da Rádio Nacional, da Rádio Ngola Yetu e da Rádio 5, existe apenas uma rádio privada cuja programação não me agrada.

O Jornal de Angola vende as edições dos dias anteriores e sobre a TPA nada há acrescentar por a sua programação ser aquilo que todos conhecemos. Apesar da beleza da cidade, sentia-me limitado por não ter a possibilidade de aceder ao serviço prestado pela LAC, ou pela Rádio MFM, tampouco ainda pela Rádio Eclésia que são por sinal os meus canais de eleição.

Durante as conversas que mantinha com o meu tio, apercebi-me que ele desconhecia a noção de pluralismo de informação. Tanto é assim, que ele desconhecia o DEBATE LIVRE, um dos programas da TV ZIMBO com maior audiência, emitido às terças-feiras, a partir das 21:00.

Informação é poder e exerce-o quem souber utilizá-la no momento certo e da melhor maneira. Privá-la aos cidadãos, ou limitar o seu acesso a estes, é uma das formas de mantê-los no obscurantismo, e, deste modo, dominá-los facilmente. Cheguei a esta conclusão enquanto estive cinco dias no Huambo de onde saí em direcção a Luanda por não mais suportar a falta de informação que muito me atormentava.

O pronunciamento feito pelo Presidente da República sobre inexistência, a seu ver, de motivo algum para que a Rádio Eclésia não emita o seu sinal para fora de Luanda, foi acolhido com satisfação pelos cidadãos que vivem dentro e fora de Luanda.

Ao receber a notícia de que a referida rádio começou a emitir o seu sinal para a Província de Malanje, terra dos meus ancestrais, senti-me alegre por saber que outros cidadãos terão acesso a mais uma fonte de informação.

É desejo de todo o cidadão, ao qual a Constituição confere o direito à informação, que outros canais radiofónicos possam, igualmente, emitir os seus sinais para as outras Províncias. Se assim for, daremos mais um passo rumo a consolidação da nossa democracia e do Estado de Direito.

 

 

Um ilustre desconhecido

A FCS/UAN realizou há alguns anos um colóquio subordinado ao tema “Memória, Identidade, Cidadania e Desenvolvimento” que contou com a participação de, entre outros, do ilustre nacionalista Luís Neto Kiambata que apresentou ao evento uma comunicação.
O evento permitiu que alguns estudantes abordassem o mais velho que é um dos convidados do programa África Magazine emitido aos sábados na RNA.
Apercebendo-me deste facto, não perdi a oportunidade conversar com o (ex-) embaixador sobre os motivos pelos quais o MPLA não reabilita a figura de Viriato da Cruz e outras relacionadas a esta personalidade que, segundo Edmundo Rocha, “iluminou os céus do nacionalismo angolano”.
Durante a conversa fiquei a saber que existe na Província do Kwanza-Sul uma rua a qual foi atribuído o nome Viriato da Cruz como forma de perpetuar a sua memória.
Mas será que atribuição do nome de uma personalidade histórica da dimensão de Viriato de Cruz é suficiente para que se conheça a sua história interligada com a de Angola?
Na semana passada, quando ia para casa, dei boleia a uma jovem que dizia viver numa zona próxima daquela onde vivo. O seu sotaque dava-me a indicação de que teria nascido numa das Províncias. Esta palavra, usada no singular ou no plural, tem o entre nós, luandenses, o significado de “fora de Luanda”.
A minha interlocutora afirmou ser natural do Sumbe, Município/Capital da Província do Kwanza-Sul. Respondendo a questão sobre a existência da Rua Viriato da Cruz na Província do K.Sul, a jovem disse haver, de facto esta Rua.
Depois de me ter confirmado este facto, procurei agir em conformidade com uma das regras que deve ser seguida durante o contacto com uma fonte: nunca dar a entender a fonte que possuis informação/conhecimento sobre o tema em estudo. Por outras palavras, melhor é apresentar-se como se não soubesses nada sobre o assunto sobre o qual se procura alguma informação.
Nesta ordem de ideias, questionei a minha interlocutora o seguinte:
– Quem é este Viriato da Cruz? A resposta não tardou:
– Não conheço.
Para piorar as coisas, salvo opinião melhor fundamentada, os programas de Língua Portuguesa em Angola não incluem o estudo da Literatura Angolana por via da qual a jovem poderia obter algum conhecimento sobre Viriato da Cruz.
Na verdade, a falta de referências históricas afirgura-se como uma das razões da crise de valores que se verifica no seio da juventude angolana.
Pois, falar de personalidades históricas é falar acima de tudo de modelos de conduta.
A minha interlocutora não é única que desconhece a figura de Viriato. Alías. como ela, estarão muitos estudantes, incluindo membros do MPLA que desconhecem o fundador do partido que, ao que parece, nunca realizou uma actividade onde fosse abordada a trajectória deste intelectual e nacionalista.
O que aconteceu durante anos a fio, foi que os jovens afectos a JMPLA promoviam maratonas onde a cerveja era vendida a preço baixssimo, como forma de atrair outros jovens para as suas fileiras, um comportamento que em nada diz se assemelha com aquele que Viriato teve.
É hora de se rever o ensino da História e da Literatura de Angola; por outro lado, se quisermos ter uma juventude educada, deve-se evitar a despartidarização da História de Angola, porque o contrário será promover a exclusão e a manipulação da memória colectiva.