Um ilustre desconhecido

A FCS/UAN realizou há alguns anos um colóquio subordinado ao tema “Memória, Identidade, Cidadania e Desenvolvimento” que contou com a participação de, entre outros, do ilustre nacionalista Luís Neto Kiambata que apresentou ao evento uma comunicação.
O evento permitiu que alguns estudantes abordassem o mais velho que é um dos convidados do programa África Magazine emitido aos sábados na RNA.
Apercebendo-me deste facto, não perdi a oportunidade conversar com o (ex-) embaixador sobre os motivos pelos quais o MPLA não reabilita a figura de Viriato da Cruz e outras relacionadas a esta personalidade que, segundo Edmundo Rocha, “iluminou os céus do nacionalismo angolano”.
Durante a conversa fiquei a saber que existe na Província do Kwanza-Sul uma rua a qual foi atribuído o nome Viriato da Cruz como forma de perpetuar a sua memória.
Mas será que atribuição do nome de uma personalidade histórica da dimensão de Viriato de Cruz é suficiente para que se conheça a sua história interligada com a de Angola?
Na semana passada, quando ia para casa, dei boleia a uma jovem que dizia viver numa zona próxima daquela onde vivo. O seu sotaque dava-me a indicação de que teria nascido numa das Províncias. Esta palavra, usada no singular ou no plural, tem o entre nós, luandenses, o significado de “fora de Luanda”.
A minha interlocutora afirmou ser natural do Sumbe, Município/Capital da Província do Kwanza-Sul. Respondendo a questão sobre a existência da Rua Viriato da Cruz na Província do K.Sul, a jovem disse haver, de facto esta Rua.
Depois de me ter confirmado este facto, procurei agir em conformidade com uma das regras que deve ser seguida durante o contacto com uma fonte: nunca dar a entender a fonte que possuis informação/conhecimento sobre o tema em estudo. Por outras palavras, melhor é apresentar-se como se não soubesses nada sobre o assunto sobre o qual se procura alguma informação.
Nesta ordem de ideias, questionei a minha interlocutora o seguinte:
– Quem é este Viriato da Cruz? A resposta não tardou:
– Não conheço.
Para piorar as coisas, salvo opinião melhor fundamentada, os programas de Língua Portuguesa em Angola não incluem o estudo da Literatura Angolana por via da qual a jovem poderia obter algum conhecimento sobre Viriato da Cruz.
Na verdade, a falta de referências históricas afirgura-se como uma das razões da crise de valores que se verifica no seio da juventude angolana.
Pois, falar de personalidades históricas é falar acima de tudo de modelos de conduta.
A minha interlocutora não é única que desconhece a figura de Viriato. Alías. como ela, estarão muitos estudantes, incluindo membros do MPLA que desconhecem o fundador do partido que, ao que parece, nunca realizou uma actividade onde fosse abordada a trajectória deste intelectual e nacionalista.
O que aconteceu durante anos a fio, foi que os jovens afectos a JMPLA promoviam maratonas onde a cerveja era vendida a preço baixssimo, como forma de atrair outros jovens para as suas fileiras, um comportamento que em nada diz se assemelha com aquele que Viriato teve.
É hora de se rever o ensino da História e da Literatura de Angola; por outro lado, se quisermos ter uma juventude educada, deve-se evitar a despartidarização da História de Angola, porque o contrário será promover a exclusão e a manipulação da memória colectiva.

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