Intelectuais arrogantes, orgulhosos ou prepotentes?

Existe um credo popular segundo o qual gente letrada tende a ser arrogante. Uma vez que as generalizações são enganosas, o correcto será pensar que esta afirmação aplica-se a apenas a alguns intelectuais cujo comportamento leva a que se chegue a esta conclusão.
E havendo necessidade de sustentar a «tese popular», nada melhor do que reflectir no (1) episódio protagonizado por um professor que não admitindo que o estudante (educadamente) o corrija, atira-se contra este dizendo que “tu não estás no meu nível!”, ou ainda (2) na disposição manifestada por uma grande sumidade em subir ao ring com o estudante que supostamente lhe retirava autoridade na sala de aula.
Que a academia é “um mundo cheio de pessoas muito orgulhosas, prepotentes”, isto não se dúvida. Que o diga o professor (ele mesmo um intelectual) que usou estas palavras para dar a conhecer a outra faceta da universidade ao seu estudante que acabava de entrar nesta instituição.
Neste festival de delírios pela ‘’(re) afirmação’’ da posição, prestígio e autoridade (incontestável?) adquiridos pelo título e a fama, encontramos também intelectuais que sentindo-se como verdadeiros semi-deuses, ou como diria alguém, Vice-Deus, nem sequer respondem a saudação dos seus «súbditos». E quando o fazem, o comportamento contrasta com a imagem que o leitor traz consigo depois de ter lido a «obra-prima» da autoria dos mesmos.
É o caso, entre muitos, de uma renomada intelectual que sendo saudada várias vezes, mantinha-se no mais absoluto silêncio. E quando saiu deste, não hesitou em disparar as balas que trazia consigo: “eu não tenho muito tempo para falar, sou muito ocupada”. 
A ilustre intelectual nem sequer tinha noção de que o motivo do contacto que se pretendia manter consigo era nada mais do que uma abordagem sobre algumas questões analisadas em alguns dos seus livros, por via dos quais passou a ser admirada pelo ilustre desconhecido. 
Será esta postura que espera de um (a) intelectual?
Que certos intelectuais desejam ser glorificados, honrados, disto não se duvida. Igualmente não se duvida que alguns sejam estranhos. Mas, quando o comportamento dos mesmos fica aquém do esperado, à margem dos princípios da boa convivência social, questiona-se se ainda são dignos de serem tratados como intelectuais e se ainda têm algum valor na sociedade.

A queda do último santo

Ao lermos o Antigo Testamento, somos informados que o sacerdócio era exercido por famílias predestinadas para o efeito e que o mesmo acontecia com o poder político cujo detentor transmitia-o ao seu filho.

Vigora assim um sistema no qual os filhos sucediam aos pais na liderança religiosa e política da Nação e no usufruto das regalias inerentes ao exercício das funções de sacerdote e de rei.

Contudo, não podemos pensar em nepotismo ou favorecimento de algum tipo, pois, o sistema que vigorava era nada mais do que reflexo da vontade do Altíssimo e ninguém ousava questionar por que razões apenas foram escolhidos e abençoados para exercer de tão nobres funções no seio do povo de um Deus que, afinal, não excluía ninguém.

Ser filho do sacerdote ou do rei pressupunha ter nascido já com qualidades requeridas, respectivamente, para o sacerdócio e para o trono. Em Angola, cuja população maioritariamente é cristã, alguns pregadores do Evangelho para os quais a teocracia é o melhor sistema político, tentaram durante algum tempo incutir na mente dos cidadãos a ideia de que o antigo Presidente da República fora escolhido e ungido por Deus para liderar o País. Tanto assim é que o uso de versículos bíblicos nos quais se apelava os judeus a respeitar o rei era usada para legitimar o exercício do seu poder de JES que, mais do que eleito pelo povo em 2012, fora, segundo diziam, eleito por Deus.

Para estes líderes religiosos, as decisões tomadas pelo antigo PR eram inquestionáveis e quem ousasse questioná-las seria alvo de sanções sobrenaturais. Tanto assim é que a gestão económica do País pelos filhos do antigo PR era considerada como um desígnio divino.

Ora, com o poder político a ser exercido agora por um novo Presidente e a queda dos santos deixados no altar, esperava-se que algum servo do Senhor tivesse a atitude que teve Natã com Davi quando este transgrediu com o preceituado por Deus. Haverá, porventura, algum servo do Altíssimo que ouse repreender o Titular do Poder Executivo por ter apeado do poder figuras tidas como predestinadas para exercê-lo?

O Titular do Poder Executivo já demonstrou ter noção de que a gestão de empresas públicas não constitui privilégio reservado apenas para uma família. Também sabe que a entrada no santíssimo lugar não constitui prerrogativa. Por este motivo, está rodeado de uma equipa com a qual pretende redimir a Nação do estado lastimável em que se encontra de ponto de vista financeiro e, sobretudo, de ponto de vista moral.

Mais importante ainda, é a noção que tem do primado da Constituição sobre os Estatutos do Partido presidido por um homem que não terá ensinado os seus filhos para que não se servissem da sua condição para obtenção de todo o tipo e facilidades.

As medidas tomadas por si, durante os 100 dias de governação, aumentaram as expectativas dos cidadãos e elevaram a sua auto-estima. O País parece ter transitado da teocracia para a democracia e, com ela, para a liberdade.

Almas angustiadas transbordam agora de alegria e o no coração do pacato cidadão renasce a esperança em dias melhores. E uma vez que estamos numa corrida de fundo, questiona-se se será possível manter o ritmo imprimido até aqui, ou se as forças do bloqueio prevalecerão sobre as acções do Executivo.

Aguardemos pelas cenas dos próximos capítulos.

 

O alarme tocou

O alarme tocou

Durante muito tempo, parecia ser consensual considerar Agostinho Neto como poeta-mor angolano. Este consenso aparente teria sido facilitado pelo regime instaurado em Angola a 11 de Novembro de 1975 avesso ao confronto de ideias, inclusive no seio da classe intelectual que incluía os escritores que, como se sabe, estavam filiados ao partido-Estado.

Com o advento da democracia, surgem agora estudos elaborados por respeitáveis académicos que refutam a tese oficial segundo a qual Agostinho Neto teria sido o poeta-mor.

Francisco Soares, estudioso da literatura angolana, elaborou um estudo interessante, No Cruzar dos Caminhos: pesquisa poética de Viriato da Cruz, no qual afirma que este último, pela influência que exerceu e pela qualidade da sua obra pode ser considerado “o paradigma da moderna poesia angolana e o seu máximo expoente poético”.

Seria errado pensar que este autor está sozinho na defesa da tese acima referida. Muito antes dele ter feito tal afirmação, o poeta Mário António dissera num artigo publicado no Boletim Cultura (1958?) que a poesia de Viriato da Cruz era uma poesia genuinamente angolana ao passo que a de Neto era uma poesia africana de expressão portuguesa.

José Carlos Venâncio e Manuel Ferreira qualificam-no como tendo sido um dos maiores poetas da lusofonia. Ao passo que José Eduardo Agualusa lamenta o facto de Viriato da Cruz ter morrido muito antes sem que tivesse tido explorado todo o potencia que tinha como “poeta e ensaísta”.

Num País como Angola cuja população é maioritariamente negra, a abordagem feita pelos autores citados é sempre vista em função da cor da pele.

E se precisarmos de exemplos bastará mencionar aqui o da cidadã angolana que, apercebendo-se de tais pronunciamentos foram feitos intelectuais brancos (maioritariamente), não hesitou em accionar o alarme: “essa gente é racista!!!”.

Embora o autor destas linhas tivesse dito haver lapas que discordam da tese defendida pelos estudiosos acima citados, a jovem manteve-se intransigente: “você pensa como eles porque te relacionas com eles”.

Mas, será ela a única a levantar o espectro racial quando pronunciamentos feitos por certas pessoas destacam o mestiço ou o branco em detrimento do negro? Haverá realmente alguma relação entre a cor da pele e a inteligência, talento e capacidade? Se a resposta for negativa, que motivo há para que insista em levantar a bandeira racial?

 

Transitar na escuridão

A transição de um ano para outro que ocorre no dia 31 de Dezembro de cada ano é um momento especial, de renovação da esperança e da fé de que o Ano Novo para o qual iremos transitar será melhor que aquele que apresta-se a chegar ao fim.

Esta crença acompanha praticamente todo o ser humano aumenta a escassas horas da passagem de ano durante o qual se esquecem os problemas porque passamos enquanto cidadãos de um País que queremos que progrida em todos os sentidos.

Tanto é assim que em plena euforia vivida enquanto festejamos a entrada num Ano Novo carregamos a utopia de que todos os problemas serão resolvidos, ultrapassados, agora que estamos noutro ano.

O ideal seria que este desejo começasse a ganhar corpo ou fosse alimentado logo no momento da passagem do ano em que o cidadão deseja que, no mínimo, os serviços e produtos básicos como o fornecimento da água e da energia, só para citar estes, lhe sejam fornecidos regularmente para que possa ter uma vida digna, normal.

Ao que parece, ainda estamos longo de ver este sonho realizado, razão pela qual preferimos usar o termo utopia por acharmos ser o que realmente traduz a desilusão de quem há escassas horas da transição para 2018 foi privado do fornecimento da energia eléctrica.

Sim. Se esta não tivesse sido a experiência vivida por nós, certamente não estaríamos aqui, logo no segundo dia do ano partilhando o inesperado com todos quantos a escassas horas da transição de ano desejaram-nos que fosse abençoada. Embora sejamos optimistas por natureza, factos como estes levam-nos a questionar a hora em que o fornecimento da energia eléctrica, da água potável, etc., deixará de ser um problema para ser aquilo que os cristãos consideram ser uma «bênção» que, por direito, deve ser usufruída pelo homem.

Transitar de um ano para outro às escuras é algo que não se recomenda a ninguém. Semelhante coisa se pode dizer para quem duvida da possibilidade de realização dos seus sonhos no Ano Novo para o qual transita. Contudo, determinados factos que ocorrem e que, directa ou indirectamente nos afectam, levam-nos pensar em sentido contrário.

É o caso do recentemente inaugurado ANGOSAT. Anos antes do seu lançamento falava-se de que com a sua entrada em funcionamento o País teria todos seus problemas resolvidos em matéria de comunicação. E a presença de ilustres e respeitáveis servos do Altíssimo entre os notáveis que se deslocaram à Rússia para testemunhar in loco o momento tão aguardado conferia solenidade ao acto com as habituais orações, aleluias e cânticos espirituais.

Em Luanda a expectativa era tanta e muitos terão sido aqueles  queno momento do lançamento da cápsula experimentaram uma sensação comparável apenas a de um intenso e deleitoso orgasmo!

Contudo, bastaram algumas horas para que a perda do controlo do satélite tivesse provocado um sentimento de indignação entre os cidadãos. Incrível esta capacidade de desiludir e frustrar as expectativas do cidadão!

Se por um lado, era expectável que tivéssemos feito um prognóstico positivo para este ano, do outro lado, não podemos deixar de reflectir sobre alguns factos negativos que ocorreram no final de 2017.

Desejar que 2018 seja um Ano Novo, é esperar que os velhos problemas sejam resolvidos. Portanto, o Novo Ano só poderá sê-lo na acepção plena da palavra se os velhos problemas forem resolvidos.

 

 

 

 

 

Hipocrisia e incoerência

 

Lembro do tempo em que juntamente as outras crianças vivia a euforia pelo Natal, época do ano em que muitas famílias sentem-se como que obrigadas a ter a mesa o bacalhau, o bolo-rei e outros mimos tidos como indispensáveis como os presentes e a árvore de Natal.

Por força da educação que tive, ia à Igreja e como acólito – responsabilidade que a época eu exercia com muito zelo – vivia intensamente este momento auxiliando o padre na celebração da «santa missa» alusiva ao nascimento do «Menino-Deus».

Bem, o tempo passou e as dificuldades económicas por que a minha família, particularmente a minha falecida mãe, passava não permitiam que, tal como no passado, pudéssemos celebrar esta data em que supostamente nasceu o «Menino-Deus».

Foi neste período (1998) em que, pese embora continuasse a ser um cristão respeitado, comecei a perder a euforia pelo Natal. Mesmo tendo ido viver para a casa do meu irmão no Lubango, em 2001, detentor de algumas posses, afastava-me das celebrações do Natal.

E quando de regresso a Luanda, ocorrido em Janeiro de 2002, fui viver sozinho, o Natal continuou a ser para mim um período normal do ano que aproveito para descansar, ler, escrever, enfim, passar o dia se fosse um outro dia qualquer.

Isto apesar de o meu salário dar-me a possibilidade de, juntamente a família que constituí, fazer o que todas as famílias fazem neste dia.

O engraçado para mim tem sido a postura evidenciada por muitos cristãos pentecostais (também o sou, mas com pensamento próprio) nesta fase do ano durante o qual acusam a Igreja Católica disto e daquilo, afirmam que esta não tem uma doutrina fundamentada na Bíblia, sendo o nascimento de Cristo cuja data não vem indicada nas Sagradas Escrituras apenas um dos exemplos com os quais sustentam este e outros argumentos.

Contudo, é difícil encontrar neste período do mês de Dezembro um cristão pentecostal (falo aqui de crentes afectos às Igrejas Universal, Assembleia de Deus Pentecostal, Bom Deus, e tantas outras que acreditam em curas milagrosas) que não esteja profundamente envolvido com o Natal, ou que não tenha recebido o tão desejado cabaz entregue à si, enquanto trabalhador, pela entidade patronal para que festeje «condignamente» o Natal.

O curioso é que histórias como estas dizem respeito tanto as ovelhas do rebanho quanto aos pastores deste que num primeiro momento os vemos justificando nas suas pregações os motivos pelos quais o Natal não deve ser celebrado – afirmam, e com razão, que a festa inicialmente pagã alusiva ao nascimento do Rei Sol foi «santificada» pela Igreja Católica que a instituiu, não tendo por isto raízes cristãs -, num segundo momento ei-los recebendo cabazes entregues pelas empresas nas quais trabalham e consumindo-os juntamente as suas respectivas famílias.

Haverá, porventura, seriedade e coerência da parte de quem apela ao rebanho para que não celebre o Natal, mas em contrapartida recebe o cabaz?

Tenha-se em conta que certos arautos do Evangelho com cargos de chefia nas empresas onde trabalham recebem cabazes de fazer inveja ao comum dos mortais, havendo mesmo aqueles que, devido as relações privilegiadas com membros do Governo eram, nos tempos das vacas gordas, agraciados com outras «bênçãos» com as quais enchiam as cozinhas das suas casas.

Mas a comédia não termina aqui.

Conhece-se a história de um diácono pentecostal que, apesar de não celebrar o Natal, recebe o cabaz que lhe é dado na empresa onde trabalha. Questionado pelo colega sobre a recepçao do cabaz, uma vez que «não celebra o Natal» (?), o ilustre servo do Altíssimo argumenta tratar-se de um direito do trabalhador. Pois é…

Se, por um lado rir faz bem à saúde, do outro lado, temos motivos mais do que suficientes para rir quando por algum motivo estivermos entristecidos. Para o efeito, basta recordar o que vemos e temos visto nesta vida.

 

 

 

Vaidades e modismo do nosso tempo

Numa das crônicas escrita por Sousa Jamba, publicada no Novo Jornal, em homenagem a Gerald Bender o escritor citava-o como um acadêmico que tendo acompanhado a transição de Angola para o multipartidarismo mostrava-se preocupado com a sociedade angolana que dava mostras que no futuro os estudos e as ideias não teriam valor.
De facto, durante a minha adolescência ouvia frequentemente conversas nas quais dos intervenientes, meus amigos e vizinhos, diziam que não adiantava estudar porque, ainda que estudássemos, nunca seríamos valorizados e que o filho do ministro ou do PR herdaria o lugar do pai no Governo.
Com o advento da paz, e o surgimento de universidades privadas tal qual fast food (isto é, criadas ás pressas, daí a péssima qualidade do ensino), assistiu-se a corrida por uma vaga no seio destas e ao aparecimento, quatro anos após a conclusão do curso, de um ‘número incontável de Doutores que nunca sequer escreveram um artigo científico ou de opinião que pudesse ser publicado numa revista científica ou num pasquim como dizia o político.
Será que a História termina aí?
No meio desta azáfama, apareceram também os analistas, para uns, comentadores/comentaristas a debitarem argumentos sobre tudo e mais alguma coisa, não havendo reconhecimento da falta de domínio de determinadas matérias.
Bem, ficaria por aqui, porém, lembrei-me terem surgido também uns especialistas que volta meia ocupam espaço na mídia. Criaram-se também uns tantos ‘Comités de Especialidade”, não importa se o profissional é ou não competente no exercício da sua profissão.
Na verdade, ser analista político é hoje o objectivo perseguido por muitos estudantes universitários, particularmente dos cursos de R. Internacionais, Direito e C. Política. Analista económico?
Sim. Existem. Mas, o que está na moda, o que ”bate”. como se diz, é ser mesmo analista político. Ter prestígio, boa retórica, e ser aplaudido, isto sim.
Entende-se assim o motivo pelo qual cursos como o de História e Antropologia, para não mais falar de Filosofia, continuem a ser parente pobre no seio da juventude que a todo custo deseja ter boa vida após a conclusão do curso universitário.
Ter a licenciatura, mestrado, ou doutoramento é para muitos indivíduos condição indispensável para que se tenha automaticamente um cargo de chefia e mordomias invejáveis.
Resultado: vemos em muitas empresas doutorados e mestrados incapazes de escrever sequer um documento, ou ainda uma frase perceptível.
Angola, Angola, Angola. Para onde vais?

 

A megalomania e a fama de um futebolista africano

Ser graduado na academia como Doutor não é tao fácil assim. Que o digam aqueles que, por mérito próprio, conquistaram este grau. Para alcança-lo, é preciso trabalhar arduamente, confrontar inúmeros autores durante um debate que parece interminável, rebater argumentos, se possível, criar conceitos e trazer algo novo para que a ciência possa avançar.
Que o uso deste grau académico prestigia o seu detentor, que o grau em si impõe respeito, particularmente, no seio da academia, e em geral, na sociedade, disto não tenhamos dúvidas. Talvez seja este o motivo pelo qual alguns directores de empresas procuram afirmar-se diante dos seus subordinados, obrigados a trata-los como Doutores quando, em muitos casos, não passam de meros assinantes de papéis.
Na verdade, vivemos num mundo onde cada um a seu jeito procura impor-se, uns pelo que fazem, outros pelo nome. Em África, o cenário não é diferente. Nesta região do mundo onde Angola está localizada, o futebol continua a ser o ópio de muitos cidadãos que deslocam-se aos estádios para assistir a partidas de futebol que opõem as equipas que apoiam aos seus adversários.
Em campo, duas equipas: PROGRESSOXKABUSCORP. Esta última é capitaneada pelo Doutor Lami, jogador proveniente da RDC. Bem, que nunca jogador algum foi graduado como Doutor, isto já se sabe. Porém, no caso em análise, acredita-se que o futebolista em causa seja dono e senhor de qualidades invulgares.
Quando endiabrado, Lami, perdão, o Doutor Lami produz jogadas impressionantes em qualquer parte do mundo, impossíveis de serem descritas inclusive pelo mais conceituado jornalistas desportivo.
Diz-se que a recepção do esférico é por si só uma obra-prima digna de aplauso. Os fãs reverenciam-no como a um deus. Talvez sejam forçados a isto pelo jornalista que incansavelmente exalta as suas qualidades.
– Doutor Lami recebe o esférico, amortece no peito, mata a cocha, um cabrito, abre um túnel, Lami, Lami, Lami, entra na grande área é travado e cai. Penálti!!!Grande cavalgada de Doutor Lami.
Ruidosa, a galera ovaciona.
– Doutor Lami! Doutor Lami! Doutor Lami!
– Este jogador, é, de facto, uma dádiva divina, um regalo – remata o jornalista.
Nas sociedades onde o título académico parece ser mais importante que o trabalho, onde, muitas vezes, o valor real do profissional não corresponde com o grau acadêmico, ser doutor, ou aparentar sê-lo, é a estratégia usada por quem deseja impor-se e ser respeitado pelos seus pares. O Doutor Lami é apenas um caso. Como ele, existem tantos que nem adianta mencionar

Assunto de interesse público?

Quando um determinado povo prospera economicamente, aumenta a probabilidade para a aquisição de cultura vista na dimensão imaterial (conhecimento, arte, ciência, etc). Pois, nem só de dólares vive um povo. A mente precisa de ser enriquecida pelo consumo de bens imateriais.
Ora, por força da minha formação universitária, e levado pelo interesse de dialogar com os meus amigos, procurei saber destes se a ida/visita ao museu ainda faz parte do hábito de muitas famílias ou se ela acontece apenas por força dos deveres estudantis.
Ao levantar estas questões, pensei que o assunto fosse de interesse público, daí a ansiedade que tive em receber os subsídios dos meus amigos. Destes, nada recebi, para além do um silencio que até não consigo compreender o motivo que esteve na base desta indiferença.
Passou-se algum tempo, o jornalista ao serviço do Correio Angolense, Silva Candembo, desenvolveu um trabalho interessante que poderá até ter sido ”roubado” por um estudante de Antropologia ou de História que aspira o grau de licenciado atribuído, noutras paragens, somente à quem realmente trabalha e apresenta os resultados do seu trabalho numa monografia.
”A Cultura como Factor de Civilidade”, penso ser este o título da reportagem apresentada em duas ou três partes, é um trabalho feito por um jornalista que habitou-me a ler os seus trabalhos sobe desporto no Novo Jornal, órgão no qual presta a sua colaboração semanalmente.
Através da referida reportagem, ficou claro que os museus angolanos, sendo o mais famoso o de Antropologia, recebem poucas pessoas e que a visita aos mesmos não é um hábito entranhado no ADN do angolano.
Num País onde coexistem várias culturas, o museu, diz-nos o antropólogo Henrique Abranches na sua obra Identidade de Patrimônio Cultural, desempenha um papel importante na formação da consciência nacional, no combate ao tribalismo, ao racismo, por ser ele um espaço de representação das identidades culturais/locais que concorrem para consolidação da identidade nacional.
É ainda o museu um espaço no qual se conserva a memória colectiva, pelo que o ensino da História deve ser complementado pelas visitas à esta instituição.
A alma de um povo expressa o que nela existe de mais profundo neste espaço sociocultural que a todos pertence.
Todavia, a questão continua no ar: haverá ainda tempo para visitar o museu em plena era do facebook, ipads e companhia?

Língua e Literatura: o debate interminável

Em determinados círculos literários partilha-se a ideia segundo a qual a literatura angolana continuará a exprimir-se apenas em língua portuguesa, excluindo-se deste modo a possibilidade de se utilizar as línguas africanas na produção do texto literário.
O argumento em si fundamenta-se no facto de muitos poucas obras terem sido escritas em línguas africanas/nacionais, sendo de destacar a recolha e publicação dos textos orais em língua kimbundo feitas por Héli Chatelain, Cordeiro da Mata e Óscar Ribas.
A crítica que recai sobre este escritor fundamenta-se no facto de ter traduzido do kimbundu para o português os textos orais concebidos na referida língua, quando, segundo Virgílio Coelho, deveria evitar a tradução. Neste sentido, acrescenta o antropólogo, coartou a possibilidade de aos especialistas analisarem seriamente os textos orais…
O debate em torno da LITERATURA ANGOLANA DE EXPRESSÃO PORTUGUESA OU LITERATURA AFRICANA, relaciona-se com a língua como instrumento de trabalho do escritor e meio de expressão da cultura do povo, elemento de identidade cultural.
Uma vez que os estudos linguísticos em Angola não tiveram até o presente o desenvolvimento que registaram noutros países africanos, nao obstante existir em Angola a Faculdade de Letras (ela forma diplomados ou pesquisadores?) e o Instituto de Línguas Nacionais (conhece-se o trabalho produzido até aqui?), a prudencia aconselha que se considere LITERATURA ANGOLANA os textos orais, as suas versões escritas em línguas africanas e não-africanas, conforme afirma Luis Kandjimbo.
Mas, haverá motivo para que reflictamos ainda sobre a língua em que deve ser escrito o texto literário angolano?

Cultural e politicamente falando

O confronto entre dois sobas é qualquer coisa que não se aconselha por as partes em ”conflito latente” estarem plenamente conscientes das consequências que um confronto desta dimensão poderá trazer para a aldeia.
Por este motivo, tanto um como outro preferem permanecer nos seus respectivos territórios, acompanhando apenas, de longe (sublinha-se) a forma como o outro exerce o poder no seu território.
”Eu não sou soba do Bailundo, por isto não posso mandar naquele território” – afirma o soba Mwyeba Ngunji.

Bicefália do poder

Na sua obra intitulada ”Lueji, O Nascimento de um Império”, Pepetela faz menção ao Estado Lunda, pré-colonial, no qual o soberano (Kondi) exercia funções político-militares ao passo que o sacerdote (Kandala) exercia funções religiosas. Estas tinham algum ascendente sobre aquelas.
Ora, a coabitação entre as duas figuras tem sido analisada pelos estudiosos do continente africano que falam do fenômeno da bicefália do poder (absoluto? ou partilhado?) na África pré-colonial que, apesar das dinâmicas registadas, conservou o legado transmitido pelo Egito onde o poder faraônico evitava exercer influencia sobre a classe sacerdotal.
A tentativa de o primeiro abocanhar o segundo provocava instabilidade…
O presente, como tempo em que os homens lutam pelo reforço do poder, tem ainda muito por aprender com o passado. Pois, como dizia Cícero, ”a História é mestra a vida”.

P.S – Se a chefia do Estado e a chefia do partido distinguem-se, se a primeira prevalece, tem ascensão sobre a segunda, poder-se-á dizer que para bom entendedor, uma ou meia palavra, basta